nunca na vida

Vamos começar a semana no coliseu. Do Porto. Vamos começar por volta das nove da noite, nove em ponto para ser exacto, e vamos começar com as pessoas na escadaria, a sessenta minutos da hora certa de um concerto. Vamos começar por dizer qua já existe uma fila a chegar aos degraus, que essa fila é juvenil, unisexo, que veste de acordo com a idade e que tem meia dúzia de casais de pais a dar um beijo e a dizer até logo. Do lado esquerdo da entrada, perto do corredor que vai levar ao Passos Manuel, um jogador do FC do Porto ainda tem guardada uma câmara de filmar que se há-de vir a revelar com bateria de longa duração num camarote perto de si, Brandi Carlile. Mas vamos antes de tudo isto continuar a descer a rua e virar nos semáforos à direita e subir depois em direcção ao ViaCatarina. Dir-se-á em sentido figurado que o passeio às montras de shopping é coisa de bater com o nariz na porta. Shopping fechado às nove da noite? De regresso, ao local de partida, em frente ao hotel com fachada de época, 3 europeus despedem-se de 3 orientais. Não tarda nada uma norte-americana de Washington sobe ao palco trazida pelas ondas gaseificadas e pela espuma branca de uma cerveja portuguesa. Deve ser a isto que chamam globalização. Este é para mim um concerto de low-cost. A custo zero, se quiser honesto dos pés à cabeça. Qualquer coisa que não tenha preço tende a ser encarada de uma forma desvalorizada. No camarote mais ao nível do palco, do lado dinheiro de quem entra, o jogador do FC Porto vai mudando a câmara de filmar de mão para descansar os braços às vez, como se os braços fossem jogadores nas substituições do andebol, mas sempre em modo record. Amanhã de manhã, quando chegar ao centro de treinos do Olival, não me vai parecer muito justo quando me disserem qua só posso recolher 15 minutos de imagem, mas a diante. Brandi Carlile resumindo e concluindo. Canta bem, muitas vezes canta até muito bem, mas aconselho a levar algumas músicas ao photoshop. E já agora: desligue a fotocopiadora quando estiver no processo criativo. Não sei bem o que dizer dos momentos karaoke em que menina decidiu ir até Radiohead, John Lennon, Johnny Cash e Jeff Buckley. É quase como se o tal jogador do FC Porto desatasse a querer ser Maradona, Pelé, Eusébio e Zidane em campo. Nunca na vida.

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Quando não há vontade de ir embora, fico. Quando não há espaço para respirar, parto. Quando me arrependo, regresso. Quando regresso encontro uma porta fechada.

Nada disso me inquieta quando acordado. Mas dormindo sacudo um sonho repetido e até partilhado pela maioria absoluta dos dias bêbados. Parto a porta, entro no quarto, não acordo. Estou de pé em pé de guerra, estou deitado de cabeça para baixo, com ao pesadelo a ganhar-me a batalha, acordo e olho para mim de pé e não gosto do que vejo.

Acordo e vejo que não passou de um sonho. É um alívio? É. E é um aviso que me avisa como quem meu amigo é, para deixar de ser assim. Adormeço com as costas molhadas, de costas para ti e tu nem sonhas com o que quem sonha pode sonhar.

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Nascer no lugar onde jaz

Dias há em que a língua teima em ficar presa no copo. O álcool sempre foi o melhor adubo das palavras, cresço em conversas para cima de metade da população residente do Bonaparte. Com a Foz nas costas, misturo água doce com água salgada, eternizo os assuntos e fica impossível que alguém que chegue entretetanto, consiga entrar na tertúlia. Como um barco nocturno em situações de mar revolto.

O espaço que concedo serve apenas para a entrada ao serviço de contra-mestres experimentados. Por esta altura, qual farol saído do nada, Isabel faz por mim a despesa da taberna, aponta a porta de saída, até amanhã a todos, depois falas com eles mais sóbrio. Tem um braço à minha espera e mamas quentes para a minha paz ao anoitecer por baixo dos lençóis. Sei que lá fora há candeeiros de ferro a luz fosca. O rio chega ao fim no lugar onde renasço invariavelmente à hora do amor escondido. Esse amor fica sereno a escutar o adormecer de uma conversa de vários copos. A língua tem destas coisas. Ora prende, ora liberta…  mas só se confia realmente livre quando escutada por esta mulher nua que se agasalha com o meu corpo.

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